E no domingo, dia 9, eu desliguei os seis alarmes com horários diversos para os remédios.
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Passei os últimos dias em repouso sem sair da cama (apenas bio break e comer fora dela), sob vigilância extrema. E com muito sangramento, que começou fraquinho no sábado passado e ficou forte na segunda, com cólicas. Óbvio, havia algo de errado, apesar de o Beta ter subido um pouco na quarta. Enfim, resolvi ligar hoje novamente para o dr. Ele pediu novamente que eu esperasse amanhã para o novo Beta ou que eu fosse ao Hospital Santa Joana para passar pelo pronto-atendimento e ligar de lá para ele, para que fosse feito um Beta e um ultrassom. Foram quase 5 horas lá. Um ultrassom sem me mostrar o que eu queria ver (e isso é normal para o que seria uma gravidez de 5 semanas e seis dias - ainda não se vê nada mesmo quando está tudo bem). Mas não era o caso: a combinação do resultado do Beta (na verdade, só isso já mostrava a real) com o ultrassom era uma clara resposta ao meu sentimento de que havia algo bem errado. Sim, eu tive um aborto. Não sei causa, se a gravidez era ectópica ou qualquer outro detalhe. Mas foi isso. O resultado do Beta foi de 6,64. Meu corpo estava expelindo os bichinhos e isso fazia gradativamente o volume do hormônio hcg cair.
Por mais que o sentimento de medo já existisse - bem como a sapiência de que muitas vezes não dá certo na primeira tentativa -, vem um sentimento de luto. Tudo muito estranho, um luto estranho, mas um luto.
Um luto por quem (ou algo) que eu nunca vi. Mentira. Eu vi sim. Vi ele surgir, em dia e hora marcada. E com a bexiga muito cheia.
Estou sentindo luto pelo sapatinho e pelo livro sobre gravidez que não consegui comprar no dia seguinte ao ver o Beta positivo pela primeira vez. E luto pelas roupinhas guardadas que tenho desde 2009, quando fui para Nova York.
O luto é pelo menino morto espancado por seu pai simplesmente para "largar mão de besteira e ser homem de verdade". Luto pelas mães que largaram seus filhos em lixeiras, sacos dentro do rio.
Luto pelas mulheres que estão "tentando" ter seus filhos já há seis, sete anos. Depois de inúmeras tentativas e métodos, continuam, firmes e fortes, mas com uma melancolia constante.
Estranho, mas tudo isso passou pela minha cabeça nas horas seguintes à certeza do que eu já sentia dias atrás.
Li sobre uma mulher que já tem quatro filhos e casou-se novamente. E está fazendo o tratamento de FIV para dar um filho a esse novo marido porque ele quer um filho. Oi? Isso é sinal de amor - um filho a qualquer preço??? Isso me deixa em luto.
Luto pelos poucos planos que Edu e eu ousamos começar a fazer. Juro que foram bem poucos, porque eu sempre lembrava da possibilidade de falha. Isso é triste. Sonhar com limites por conta dos limites da ciência.
Pedem que eu siga em frente. Preciso tomar as providências e entender os próximos passos com o dr. Mas é impossível não fazer as contas e pensar que eu apliquei 14 injeções, usei 12 caixas de Utrogestan, 3 caixas de Primogyna e outros mais...
E, num surto de me colocar no lugar dos outros, tive o pensamento típico escroto-machista de que tudo foi privada e em absorventes abaixo (nojento, eu sei, mas as rotinas desse tratamento são nojentas mesmo e os incomodados que passem ao próximo blog de moda, look do dia ou para as páginas dos pôneis e afins).
Vou parar de pensar um pouco. Lola aqui do meu lado só me olha. Entendeu quando eu disse que estava sem saco: afastou a carinha, virou e suavemente se deitou apoiando o corpo em minha perna. E, assim, compartilhou comigo e o Edu esse luto estranho.
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